Sem querer estar a desvalorizar a opinião de tão sábios interlocutores como o Lemon (h)ate Lemon, o Solimão ou até o mui honrado Diogo Cavaleiro, gostava também de mandar a minha acha para a fogueira, e apresentar o meu ponto acerca deste dever (que aparentemente é para muitos uma obrigação) que é o Dia da Defesa Nacional.
Não me considero um português fervoroso, nem mesmo quando a selecção joga. Não considero o nosso hino um primor da escrita de canções ("egrégios", bah!). Não sou aquilo que se pode considerar um patriota.
Por outro lado, não considero que (e aqui alinho-me ao lado do solimão) um país necessite de uma
warfare desenvolvida para manifestar e manter a sua hegemonia. Acredito muito mais numa hegemonização pela cultura, do que numa dominação pela força, tantas vezes mais fraca do que aquilo que tomamos como frágil. Sou, acima de tudo, um diplomata. Defendo que a procura do diálogo e de situações de compromisso e empenho mútuo são infinitamente melhores e mais éticas do que uma dominação pela força e que a intimidação e a ameaça.
Tendo dito isto, pode parecer paradoxal que eu tenha apreciado bastante e que considere fundamental o Dia da Defesa Nacional.
Não ponho em causa que os moldes actuais não serão os mais correctos e que, em algumas alturas, eles parecem técnicos de vendas, como apontou o LhL. Mas eu acho que há aqui todo um outro lado que não tem sido considerado e que vale a pena ter tido em conta.
Chamem-me retrógado, se quiserem. Mas não são raras as vezes em que me envergonho da minha geração e reproduzo comentários como "Esta juventude de hoje está perdida" e outros desse estilo. Até mesmo a própria ida ao Dia da Defesa Nacional contribuiu para essa minha ideia. O que eu lá vi foi, não apenas os (poucos) jovens bem-formados, respeitadores e bem-educados, mas também, e especialmente, os jovens mal-formados, desrespeitadores e rudes, que desrespeitavam os militares (não me refiro aqui ao facto de lhes devermos respeito especial por serem militares, refiro-me ao respeito básico que devemos a todas as pessoas em geral).
Pelo que conheço, sei que o solimão e o LhL e o Diogo Cavaleiro são pessoas bem formadas e com boas maneiras e são, no fundo, indívíduos completos e bem-fundados. Há que considerar a outra parte dos jovens de hoje em dia. Como é possível que eu (ou o solimão, ou o LhL ou o DC) possa ter, em termos cívicos, o mesmo peso que um indívíduo inerte e inútil? Como podemos garantir um futuro positivo para a nossa geração e para a outra a seguir à nossa e para a outra a seguir a esta e assim sucessivamente, se não tivermos como valores a honra, a responsabilidade e a fraternidade. Posso estar a ser idealista, mas tenho vindo cada vez mais a acreditar que esses valores deviam ser reforçados como pedras basilares da nossa vida civil.
No entanto, por vários motivos, sabemos que esses valores estão em défice hoje em dia e que esse défice está patente em diversos problemas da nossa sociedade: a corrupção, a ganância, o chico-espertismo, etc.
Creio que as Forças Armadas são particularmente relevantes e essenciais no que concerne a sua função pedagógica e cívica. Teria, a meu ver, um papel essencial na formação pessoal e cívica do cidadão e no incutimento de responsabilidade, honestidade, disciplina e fraternidade no indivíduo. E seria, especialmente, uma forma de contrariarmos a inércia, a ignorância, a anarquia, a crise de valores que se vive na sociedade de hoje em dia. Não é por acaso que se ouve muita gente mais velha a dizer que foi na tropa que se fez Homem. A tropa é, em suma, um instrumento de formação de cidadãos, fornecendo-lhes os mecanismos necessários para serem, de facto, cidadãos.
Fico-me por aqui. Tanto mais haveria a dizer, mas espero que esta opinião sirva para adicionar mais achas à fogueira (que, aliás, está bem mais viva do que o inocente tópico inicial sobre este tema dava a antever.)